Quem joga Cities: Skylines sabe disso. Ou então qualquer outro clássico que lhe dá o poder de construir uma cidade. Todos conhecem a sensação de passar horas vendo sua criação evoluir. Avenidas são planejadas como se fossem desenhadas a mão ao mesmo tempo que pontes perfeitas definem a vida de seus cidadãos. Na tela do computador, você é um deus onipotente, mais até do que Zeus no Olimpo e Poseidon nos mares. A Paradox Interactive faz do jogador um governante absoluto capaz de redesenhar o mapa de uma cidade apenas com cliques.

No entanto, basta deixar o tempo simular por alguns minutos para a realidade se impor. De repente, o trânsito da rotatória principal colapsa porque o caminhão de lixo ficou preso na pista errada, o que impede a energia elétrica de chegar à estação de tratamento de água, gerando um êxodo sanitário em massa e a falência da prefeitura. Sob as lentes da administração pública e da ciência política, vale a fúria de nos perguntarmos: até que ponto o planejamento centralizado funciona? E o que os simuladores urbanos nos revelam sobre a fragilidade da gestão estatal?

A ilusão do planejador onisciente:

Na teoria econômica, essa ideia não é nova. Não são poucos os que acreditam que um governante ou um corpo técnico consegue prever e controlar todas as variáveis do tecido social. Essa é a famosa falácia do planejamento absoluto. É uma crença de que a economia e a vida urbana são máquinas mecânicas cujas peças podem ser perfeitamente encaixadas de cima para baixo. Isso não quer dizer que planejar é um erro. Mas que ele possui certos limites que esbarram exatamente no quão complexo é a existência humana e sua sociedade.

Em Cities: Skylines, é possível cair exatamente nessa armadilha. Se desenharmos a rodovia perfeita, o cidadão vai se comportar de maneira racional. Isso é o que se acredita. Porém, o jogo, brilhantemente, nos pune por essa soberba. Ele nos lembra de um conceito basilar até mesmo para quem não estuda o planejamento urbano. A cidade é um organismo vivo, caótico e imprevisível, composto por milhares de agentes. Além do mais, cada um toma a sua própria decisão. Quando o prefeito tenta forçar uma lógica sem entender a dinâmica humana, o sistema implode.

Cities Skyline (2015). Créditos: Paradox Interactive.
Cities Skylines (2015). Créditos: Paradox Interactive.

A “Alça de Acesso” e a fragilidade da cadeia logística:

Se há algo que qualquer auditor ou gestor público entende bem é que os grandes colapsos raramente vêm do topo; eles começam nas falhas invisíveis da base. Em Cities: Skylines, você pode construir monumentos faraônicos, estádios de última geração e aeroportos internacionais gigantescos. Mas se a modesta alça de acesso da rodovia que liga a zona industrial ao setor comercial tiver um erro milimétrico de projeto, a cidade inteira para. O fluxo de mercadorias cessa, a arrecadação de impostos despenca e o Estado entra em falência técnica.

Essa dinâmica expõe de forma bem evidente a necessidade de se entender a logística e a infraestrutura primária de uma cidade. Mesmo que no fim das contas, aqueles que ordenem as coisas estejam preparados para o imprevisto. Na administração pública, é exatamente isso que ocorre quando o básico é deixado de lado. Desde um processo de licitação que demorou até a falta de um planejamento. O castelo de cartas desmorona não por falta de grandes ideias. Ele na verdade cai porque o encanamento básico da burocracia entupiu.

As leis invisíveis que moldam o território:

Outro ponto fascinante de Cities: Skylines é a frieza matemática com que lida com o tecido social. Quando você decide alterar o zoneamento de um bairro antigo de baixa renda para uma zona comercial de alta densidade, tudo é simples. O jogo resolve a questão de forma instantânea: os prédios velhos são demolidos. As retroescavadeiras aparecem e os edifícios que vão guardar as grandes corporações brotam do chão. Isso é claro, em poucos minutos de simulação. Por outro lado, os antigos moradores, aqueles que moravam ali, evaporam por completo.

Na vida real, a política urbana é um cabo de guerra brutal. Ela vai envolver interesses imobiliários, pressões sociais, e, com toda a certeza, conflitos das classes locais. O jogo, até para deixar algo minimamente jogável, omite o drama humano, mas nos força a refletir. Aqui, se observa como as decisões tecnocráticas frias, aquelas tomadas em gabinetes distantes, muitas vezes tratam as cidades como meras planilhas de Excel. Para a planilha, o importante é o PIB municipal subindo e o tráfego fluindo. Po outro lado, o custo social dessa “otimização” pode ser devastador.

Cities Skyline (2015). Créditos: Paradox Interactive.
Cities Skylines (2015). Créditos: Paradox Interactive.

O prefeito tirano e o abismo entre a prancheta e a rua:

Ao fim de algumas horas de jogatina, temos ao menos algum tipo de resposta para este velho dilema. É possível perceber que o verdadeiro prefeito de Cities: Skylines não passa de um déspota benevolente, ou então caótico se não souber o que está fazendo. O jogador transforma bairros inteiros, muda o curso de rios e expropria terras da noite para o dia. Isso tudo sem ao menos sem precisar prestar contas a câmaras de vereadores, tribunais de contas ou ministérios públicos. Todas estas instituições, acreditem, existem no mundo real.

A graça, e talvez a grande lição, de jogar com o destino urbano de uma população virtual é perceber o abismo que existe entre a teoria da prancheta e a complexidade da rua. Portanto, da próxima vez que sua cidade travar em um engarrafamento, não desconte tudo no tráfego virtual. Lembre-se de que ali está condensada a mais pura lição de ciência política. Governar não é desenhar linhas perfeitas no mapa, mas tentar gerir o caos inevitável da vida em sociedade. E, acredite, na vida real a ferramenta de Ctrl+Z não existe.

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